31/07/2016

A ÁGORA É AQUI E AGORA

Todo sistema, qualquer sistema, um dia entra em colapso. Não há nada de extraordinário nisto. É a vida em seu processo ciclotímico. Um vai-e-vem, um sobe-e-desce, um balanço pendular, uma intensidade emocional. Nada é estático, tudo está sempre em movimento. É a intensidade e direção dos ventos, é o movimento das marés e o afasta e aproxima dos corpos celestes. Na órbita dos elétrons em torno do núcleo, de repente um deles escapa, o sistema colapsa e um outro e diferente átomo surge. O que era não é mais.

O sistema que sustentou a democracia representativa colapsou. Somos lerdos em perceber mudanças que não têm reflexo imediato no nosso dia-a-dia porque o horizonte de nossa capacidade de visão é muito curto. Tendemos a enxergar muito pouco além de nosso umbigo. 

A democracia, nos moldes sugeridos por Aristóteles (século IV a.C.) e pouquíssimo praticada, emergiu no século XVIII por força da era industrial e das ideias de Montesquieu, passando a ser praticada pelo mundo ocidental desde então. Os modelos parlamentarista, presidencialista e populista (uma versão piorada do segundo), foram praticados opcionalmente por algumas nações, e alternadamente por outras. Enquanto o Estados Unidos é um exemplo da opção presidencialista desde sempre, o Brasil já fez, depois da monarquia, experiências de república democrática com os três modelos.

Atualmente estamos em uma disfarçada oligarquia de abrangência internacional. Cidadãos fora do poder político constituem apenas massa de manobra para o conjunto de cidadãos que, membros de um clube semi-fechado (tem sempre gente entrando e saindo), sugam os recursos do Estado em único proveito próprio. Sem escrúpulos. Sem remorso. O sistema é tão drasticamente perverso que apenas aqueles partícipes da quota universal de psicopatas é que se propõe a fazer parte do clube. Só àqueles que possuem o ferramental apropriado de desprezo pelo outro serão bem-vistos, bem-aceitos e bem-sucedidos. Quem de nós está disposto a uma odisséia rumo a, entre tantas, posições na estrutura de poder? Não há espaços, obviamente, para bons samaritanos, bem intencionados e de espírito público. Sem chance para não-psicopatas. Isto não vos pertence.

Isto tudo é velho, nada de novo, pelo menos desde o início da era industrial, do aumento do valor do dinheiro na vida diária presente e na expectativa da vida futura. A democracia representativa foi elaborada num mundo razoavelmente estável de Aristóteles a Montesquieu. Mudou quando o progresso científico sacudiu o século XIX. Muda agora quando a velocidade dos avanços da tecnologia torna obsoleto o que nem mesmo tivemos tempo de vivenciar. O novo é velho sem ter sido adulto. Estamos em uma "corrida louca" sem saber se e quando acaba. Corremos. Corremos. Corremos. Só isso.

Podemos coisas que não podíamos há dias atrás. Podemos ser relevantes sem ter qualquer relevância. Podemos mentir, fraudar, mascarar, agredir, punir, induzir, sem sermos descobertos. Podemos molestar sem sermos molestados. Podemos ter e proclamar nossas mais rasteiras opiniões como verdades universais. Podemos ser radicais fundamentalistas sem ter a menor noção das consequências sobre os outros. Que me importam os outros se eu me acho?  Sem termos nos informado, pesquisado, meditado, refletido, nos vemos como grandes filósofos contemporâneos. E podemos distribuir tudo isso em rede, aos quatro backbones, atingindo, tanto alvos específicos (desafetos, discordantes, políticos, chefes, ex-parceiros), quanto um contingente sem rosto que transita virtualmente na proximidade de nossa micro aldeia. 

Neste novo mundo em que dias de 24 horas não nos satisfazem, nos manifestamos em faces, em blogs, em tuites, em zaps, e emitimos e curtimos conteúdos os mais egocêntricos. Politicamente, e isto ainda não assimilado pelo Estado, tornamos obsoletas as urnas de votação. De que servem elas, afinal, se a vontade da maioria está expressa na conexão de banda? Larga ou estreita.

A praça onde o povo se manifestava na Grécia antiga, a Ágora de Atenas, é aqui e agora. O jogo já mudou, só ainda não sabemos quais são as novas regras.


20/07/2016

O NOVO É O VELHO MAQUIADO

Nesta polêmica do Whatsapp o que mais tem é visão embaçada. Vejamos.

O Ronaldo Lemos, advogado, que merece nosso respeito e admiração por ser um dos principais criadores do Marco Civil da Internet, em entrevista à TV, assume uma posição indefensável na defesa dos gigantes da comunicação digital. Ele se deixa usar ao afirmar que não é tecnicamente possível abrir as mensagens trocadas pelo aplicativo. Falso. Ele sabe disso. A tecnologia é elaborada pelo homem para atender seu interesse egoísta. Mude-se o interesse, muda-se a tecnologia. Não será negando o inegável que construiremos uma solução para uma questão, mais uma, que afeta tão fortemente a vida moderna calcada na grande rede. Pelo zap-zap (como diz uma amiga) o bandido postou: "Perdeu."

Mas, a tal "pergunta que não quer calar", que o Ronaldo e os que aceitam o argumento do Facebook (neste julho/16 a proprietária do aplicativo em discussão) precisam responder é: vocês realmente creem que a empresa responderia do mesmo modo se fosse instada a revelar o conteúdo de conversas entre específicos cidadãos por ordem (ou por um pedido educado, tanto faz) da CIA? Ou da Suprema Corte dos EUA? Ou do Pentágono? Ou mesmo do Senado americano? Se acham que sim, sou obrigado a lhes revelar que nem Papai Noel, nem coelhinho da Páscoa, nem Saci Pererê existem de verdade. 

Ôpa! A TV me alerta que a Apple peitou o FBI em caso recente de desbloqueio de ceular. É, parece que o FBI não é mais aquele que pegou Al Capone. Pode ser. De qualquer forma, o que aconteceu? Eles ignoraram a Apple e contrataram uns hackers dispostos a fazer o serviço. Assunto encerrado.

Um leitor de O Globo, José Carlos de Almeida Pires, neste 20 de julho de 2016, observa que "Nunca vi a justiça mandar abrir cartas de investigado". Ver já viu, só não está ligando as pontas. A Lava-Jato, quase diariamente, arresta computadores de investigados e faz uma devassa em emeios (cartas eletrônicas) enviados e recebidos. Graças à esta "violação" esquemas de corrupção têm sido revelados em suas entranhas. Mas, não se sabe porquê, Lula, Dilma, Cunha e Renan, continuam soltos.

Por que as ligações telefônicas e os emeios podem ser objeto de conhecimento da justiça, mas o conteúdo enviado por aplicativos de troca de mensagens não? Qual a diferença entre mensagens enviadas por webmail ou por Facebook e seus concorrentes? Para mim, rigorosamente, nenhuma.

Ok, você defende o direito à privacidade. Para você é um direito inalienável. Perfeito. Então, mantenha suas conversações livre da bisbilhotagem alheia, seja ela do cônjuge, do seu vizinho, de um hacker, do oficial de justiça ou da Polícia Federal. O conceito de inviolabilidade da correspondência... já era.

Todos nós já estamos mais do que avisados, alertados, dos riscos a que nos expomos quando usamos a tecnologia da comunicação por meios eletrônicos. Assim, do mesmo modo que devemos ter reservas no que escrevemos em cartas ou emeios, falamos ao telefone ou no elevador, e observar os mesmos cuidados nos aplicativos de troca de mensagens por celular. A regra universal é: se não deseja ver propagado aos 4 ventos o que você fala e pensa, não os utilize, mantenha suas conversações longe de escuta. Ou fique de boca fechada e teclado travado.   

O conceito de privacidade em vigor até ontem, está, hoje, irremediavelmente caduco. Quando vemos o que é exposto da vida privada em uma conta qualquer do Facebook, e não importa a idade ou o sexo do assinante, o que constatamos é que privacidade é... o que é mesmo privacidade? Isso existe? (*)

É evidente que há uma tentativa destas gigantes em se sobrepor às leis brasileiras (ou de qualquer outro país) no intuito de defender o que eles acreditam ser o mais conveniente para seus modelos de negócio. A nós, cabe definir os limites e regras a que deverão se submeter se quiserem operar por aqui. E, acredito eu, que o princípio mais relevante para determinar isto, é a segurança tanto do cidadão, quanto da comunidade em que vive, quanto do país.

Quanto ao prejuízo pelos que, com a devida cautela, usam este recurso de produtividade e agilidade que esta tecnologia oferece, evidentemente há que se encontrar uma sanção aos recalcitrantes que não seja a suspensão do serviço, porque penaliza os inocentes, mas algo que estimule as prestadoras do serviço a buscarem dentro de si mesmas ações compatíveis tanto com seus negócios quanto com a obediência às leis do país de onde arrecadam volumosas quantias.

Aproveitando, tenho muita curiosidade em saber quanto as empresas como Google, Facebook etc. estão recolhendo de impostos todos os meses aos cofres do poder público?

Enfim, não há nada de novo, é só o velho que está maquiado.

(*) Sobre privacidade escrevi um texto em 2007 com título "Privacidade em Tempos Modernos".

19/07/2016

HÁ 20 ANOS

Neste tempo de ilógicos atentados a inocentes, cuja eficácia não identificamos, lembrei-me de Samuel P. Huntington, economista norte-americano, que, em 1996 (portanto há 20 anos), publicou, premonitoriamente, "Choque de Civilizações", e fui buscar o "extrato" da leitura que fiz naquele final de década.

Não foi, portanto, por falta de aviso (o que me faz duvidar seriamente da eficácia do trabalho de caras como Huntington, Tofler, Huxley e outros, do passado e do presente, já que parecem ser intencionalmente ignorados).

A íntegra do extrato você acessa aqui, mas reproduzo a seguir o que achei de mais pertinente ao que estamos ouvindo e assistindo todos os dias. Não acredito que possamos imaginar a dimensão do que está por vir - nem visualizar uma porta de saída para este que é o maior dos conflitos -, por mais reflexões que façamos. Espero, apenas, ajudá-lo a organizar sua percepção para tocar a vida com o mínimo de sanidade mental e esperança.


"Civilização é o mais amplo agrupamento cultural de pessoas e o mais abrangente nível de identidade cultural que se verifica entre os homens, excetuando-se aquele que distingue os seres humanos das demais espécies."

"As civilizações se diferenciam umas das outras por sua história, língua, cultura, tradição e, sobretudo, religião."

"As interações entre os povos de diferentes civilizações estão aumentando; essas interações crescentes intensificam a consciência das civilizações, das diferenças entre as civilizações e entre as comunidades das civilizações."

"A desocidentalização e a nativização das elites ocorre em muitos países, ao mesmo tempo que as culturas, estilos e hábitos ocidentais, geralmente americanos, tornam-se populares entre a massa da população."

"Em conflitos ideológicos e de classe, a questão-chave era:”De que lado você está?” As pessoas podiam escolher um lado e podiam mudar de lado. Nos conflitos entre as civilizações a questão é: “O que é você?” Isso não pode ser mudado."

"O governo democrático moderno nasceu no Ocidente. Quando se desenvolveu em sociedades não-ocidentais, geralmente foi o produto do colonialismo ou da oposição ocidental."

"O fim da União Soviética pode dar à Turquia a oportunidade de se transformar em líder de uma civilização turca renascida que englobaria sete países, da fronteira da Grécia às da China. Estimulada pela postura ocidental, a Turquia está fazendo um vigoroso esforço para forjar essa nova identidade."

"Se os russos, deixando de se comportar como marxistas, rejeitarem a democracia liberal e passarem a se comportar como russos, mas não como ocidentais, as relações entre a Rússia e o Ocidente poderão de novo se tornar distantes e conflituosas."

"A curto prazo, seria claramente vantajoso para o Ocidente promover mais cooperação e união em sua própria civilização, em especial entre seus componentes europeus e norte-americanos, incorporar ao Ocidente as sociedades da Europa Ocidental e da América Latina, cujas culturas se aproximam da ocidental; promover e manter relações de cooperação com a Rússia e o Japão; evitar que conflitos intercivilizacionais locais se transformem em grandes guerras intercivilizacionais...."

"Para isso o Ocidente terá de manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses diante dessas civilizações."

08/07/2016

EU CHORO!!!

Eduardo Cunha chorou. É perseguido. É inocente. Nunca recebeu qualquer quantia como propina. Aqueles 80% dos 1% dos empréstimos da Caixa oriundos de recursos do FI-FGTS que ele recebeu, o foram pelos serviços que ele prestou, não se sabe quais, nem quando. De qualquer forma, com esta enfática declaração, não resta dúvida: prendam o Fábio Cleto, ex-Presidente da Caixa, por calúnia, pois não há prova daquelas reuniões de segunda-feira terem existido. 

Dilma está sendo perseguida. Se diz injustiçada. Não praticou nenhum mal-feito e nunca ouviu falar, nem lá esteve, nessa tal de Pasadena. Abandonada dia-a-dia por ex-devotos, solitária num canto escuro do Alvorada, ela chora. Então, não resta a menor dúvida: prendam o José Eduardo Cardozo que não consegue demonstrar sua inocência.

Lula se diz o "mais honesto dos brasileiros". "Nunca antes na história deste país" um ex-presidente foi tão perseguido. Tem uma gravação telefônica onde ele fala do "meu sítio" em Atibaia. Mas, da boca pra fora, afirma que não é dele. Dizem que atualmente ele está em depressão, pouco fala. Chora. Chora ao se lembrar do triplex perdido do Guarujá. Então, não há dúvida: prendam o pedalinho.

Lulinha se diz um empresário de sucesso. O pai o considera um "gênio". Prestou serviços relevantes à Oi/Telemar (a tal que está quebrada e nos deixando uma conta de 65 bilhões de reais!). É inocente. Ele chora ao perceber que a ligação caiu. Definitivamente. Então, que dúvida pode haver? prendam o cadáver de Sérgio Motta, responsável pela privatização das comunicações.

Paulo Renato faz beicinho enquanto sua esposa-senadora chora pelo honestíssimo marido, mas chora mais pelo fato de um juiz ter bloqueado alguns milhões de suas contas e ela agora, como boa paranaense, não pode mais fazer compras no território livre de Ciudad del Leste. Por seu lado, ele reafirma que é inocente e que tudo ficará provado. Na alcova, de tornozeleira, abraçado à sua Gleise, ele chora. Então, onde está a dúvida? prendam todos os aposentados que pegaram empréstimo consignado pra ver se eles deixam de ser otários.

Delcídio do Amaral só estava dando uma força para o amigo Cerveró quando sugeriu um aviãozinho pra ele escafeder-se do Brasil. Injustiça dos seus pares do Senado terem tirado seu mandato. É absolutamente inocente. Em São Paulo, com a cabeça deitada sobre o colo de sua mãezinha, reclamando dos que o abandanaram, especialmente "dela", ele chora. Então não há dúvida, prendam o filho do Cerveró junto com seus gravadores telefônicos suspeitos.

E enquanto não se executam as sentenças aqui propostas, eu, abraçado com minha deusa, no friozinho de Itaipava, bebendo um "chateau" de remediado, choro!!!