05/04/2018

GLEISE (PT) E MARCO (STF)

Vencemos! Vencemos?

Nem mesmo  numa competição esportiva o "vencemos" é definitivo. Vide Lance Armstrong e todos os dopings, e os tantos recursos impetrados nos tribunais esportivos. 

Dado o veredito temporário para o HC de Lula (não confunda, não é Hospital das Clínicas, mas Habeas Corpus), a advocacia petista já se mobiliza para entrar com recursos e embargos, passeatas e o que mais lhes ocorrerem, desde que sirva ao adiamento da prisão do "grande líder", ou, melhor ainda, do cancelamento da sentença sob alguma alegação que não posso imaginar.

Gleise, aquela hipócrita hoje presidenta do partido dos trabalhadores, tem a convicção de que Lula não pode ser preso porque há que se considerar que ele merece "a presunção de inocência". Para ela e seus bajuladores, o sujeito que é condenado em primeira instância como culpado por um delito, deve merecer, mesmo assim, a presunção de sua inocência! Epâ! Nem mesmo depois de condenado em segunda instância? Nem mesmo depois da pena ter sido aumentada? Qual foi a parte da mensagem que eu não captei? 



Ela não está sozinha. Marco, o juiz surpresinha, em seu arrazoado no julgamento de ontem (4/4/18), produziu uma argumentação na mesma linha. Defende ele que só o supremo tem o poder de mandar o delinquente para o xilindró. Enquanto não chegar na última instância, o cidadão até então julgado culpado, não pode ser preso porque há o risco dele ser inocente! Ok, senhor Marco, mas então ficam duas perguntinhas que gostaria que nos respondesse: 1ª) A se concordar com Vossa Excelência, qual passaria a ser a serventia dos tribunais das duas primeiras instâncias?; 2ª) Tal entendimento valeria para todos os brasileiros iguais em direitos, ou só para os "mais iguais", pois a valer para todos, nossas penitenciárias ficariam, imediatamente, vazias, concorda? 

Estávamos todos apreensivos até o momento do voto de dona Rosa. Não fosse ela e o castelo de cartas marcadas da corrupção construído pela Lava-Jato ruiria no dia de hoje com a consequente soltura de todo mundo. Estamos aliviados. Para os cidadãos de boa índole, venceu o óbvio. Reafirmou-se um princípio jurídico que nos permite voltar a acreditar na justiça. Será?

No noticiário pós término da sessão no STF, tomo conhecimento de que já existem articulações entre políticos com mandato - temendo a não reeleição e perdendo, assim, o foro privilegiado -, para votar uma PEC que deixe claro na Constituição que ninguém possa ser preso após julgamento em 2ª instância. Mas para que isto os salve, eles precisam votar ainda este ano.

Salvo algum erro meu por falta de mais informação, é isso que devemos esperar.











15/03/2018

OTÁRIO DA SILVA, O INJUSTO

Antes de sugerir que você assista aos dois vídeos abaixo (publicados na rede em 6/3/18), quero dizer que eu, Otário Von Vogel, passo, a partir de  hoje, a me considerar um injusto, pois não tenho compaixão por nossos menores e maiores assassinos. Nada mais a acrescentar ao que é dito nestes vídeos de duas palestras apresentadas em evento do Movimento Brasil 200.

Roberto Motta, escritor e professor, Coordenador de Segurança Pública do Brasil 200.


Marcelo Monteiro, procurador do MPE/RJ, Coordenador de Segurança Pública do Brasil 200.



25/02/2018

OTÁRIO DA SILVA CONTINUA SENDO ENGANADO

A hipocrisia continua. Depois que publiquei o post anterior, o Exército não foi atendido em sua reivindicação para ter o "direito de matar", o que reforça meu argumento de não estarmos em uma situação de guerra;
o mesmo Exército adotou o procedimento de fotografar moradores das comunidades para "checar informações junto ao banco de dados da Secretaria de Segurança"; a OAB e outros argumentam que tal procedimento é um ato ilegal já que a "lei estabelece que nenhum cidadão seja submetido à identificação criminal se estiver portando documentação civil", esquecendo estes que situações de exceção devem, forçosamente, serem enfrentadas com medidas de exceção; o programa do Alexandre Garcia, na GloboNews, reuniu três pretensos especialistas na área de segurança (vejam o rodapé deste post) que não deram a menor pista de resposta à pergunta do jornalista na abertura do programa: "Como se chegou a essa situação e quais as causas mais básicas?"(**); 
e no minuto em que começo a redigir este texto, me chega pelo whatsapp três áudios - ressalto que apócrifos -, pretensamente gravados por integrantes da "banda honesta", seja da Polícia Militar, seja do Exército, justificando a troca de coronéis da Polícia Militar por generais das Forças Armadas, com o objetivo de prender e levar a julgamento, sejam graduados ou praças, todos os que forem considerados "mão de macaco" (policial que aceita propina da bandidagem);
e a notícia de que os 60 fuzis apreendidos no Galeão em julho/17, enviados por Frederik Barbieri (hoje preso) que atua há 20 anos enviando armamento para o Brasil, por razões hipócritas, estão até hoje guardadas num depósito do Exército impedidos de serem repassados para a Policia Civil, ou para qualquer outra instituição da Segurança Pública que eles possam ter serventia.

A hipocrisia, portanto, continua, não importando de que visão institucional ou política ela venha. Não se quer olhar para o lado em que pululam as razões básicas da criminalidade no Brasil: 4º maior contingente de prisioneiros do mundo; 45% dos quais, sem sentença, aguardando julgamento;
um país que discute se a oligarquia no poder pode ou não ser presa depois de condenada em 2ª instância, mas que não se importa com isso quando se trata de jogar, por qualquer 10gr de droga, mais um jovem pobre-preto-mulato-branco, dentro de uma cela para 4 ou 5 onde já estão 30 ou mais; mais de 12 milhões de desempregados consequência de 13 anos de governos corruptos e irresponsáveis; fronteiras imensas e abertas com países produtores/exportadores de drogas; uma Constituição que protege e estimula o crime, pois a família do criminoso estará mais bem amparada com ele preso do que com ele desempregado; um aparato de segurança pública com equipamentos sucateados, formação insuficiente e salários aviltantes para quem se arrisca a morrer enfrentando bandidos(***) ;
a corrupção em metástase (está na moda) na hierarquia das forças policiais como reconhece o próprio general Etchegoyen;  a vida de cidadãos de bem das comunidades, subordinada às ordens e regras impostas por milícias e traficantes que se impõem pela total ausência do Estado; um Estado que, apesar de ainda se apresentar como apoiador do livre mercado e da livre iniciativa, tem uma das Constituições mais intervencionista do mundo, seja na economia, seja na vida dos cidadãos.

A hipocrisia surgirá como um tapa na cara de todos nós quando os não-resultados surgirem, porque eliminar as causas está, em sua maior parte, nas mãos de quem é causa.


É isso!

(*) Programa de Alexandre Garcia, na GloboNews, dia 21/2/18, com a presença do Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, o general  Sergio Etchegoyen, o Presidente do Conselho Administrativo do Forum Brasileiro de Segurança Pública, Cassio Thyone, ex-perito da Polícia Civil, e o Coronel da Reserva da PM, Robson Rodrigues da Silva, antropólogo, atualmente pesquisador do Laboratório de Análises de Violência da UERJ, e foi coordenador geral de UPPs.

(**)E desperta perguntas de como se chegou a essa situação, quais as causas mais básicas, que remédios adotar, quais as chances de se alcançar bons resultados depois que diagnósticos e receitas só viram a situação se agravar.

(***) 2017: 294 policiais baleados, 134 mortos (em 2016 foram 135).

Para quem quiser se aprofundar no tema "corrupção" aconselho a leitura deste trabalho “Fighting police corruption in Brazil: The case of Rio de Janeiro”, de Rick Sarre, tradução adaptada de Jorge da Silva, cientista político, Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto / pesquisador-visitante da mesma universidade.


Após a leitura do referido trabalho, enviei a seguinte mensagem para o professor Jorge da Silva:
Sou um cidadão comum, mas tenho um interesse especial em entender a corrupção. Li sua tradução de “Fighting police corruption in Brazil(...)" e me chamou atenção a não abordagem de uma faceta da corrupção que se apresenta, especialmente, em agentes públicos, não especialmente em policiais. É a ausência, despreparo ou incompetência das instituições voltadas para a prestação de serviços aos cidadãos. Um simples, mas emblemático exemplo: quando alguém suborna um agente para não ter seu carro levado para um depósito nos confins, inclusive sujeito a ser depenado, é porque o prejuízo do não subornar pode se tornar inviável de ser pago. Por que será que tais depósitos estão repletos de sucatas? Fosse o Estado ágil, eficiente, desburocratizado, com certeza teríamos a eliminação de uma das principais fontes de corrupção: a técnica de criar dificuldade para gerar facilidade.


21/02/2018

OTÁRIO DA SILVA E A INTERVENÇÃO NO RIO

Eremildo, personagem criado pelo jornalista Elio Gaspari, é um idiota. Ele não entende as coisas da política. Mas está no dicionário que idiota é aquele que "carece de inteligência". Eu não acho que careço de inteligência. Nem acho que meus amigos ou o "povo" brasileiro careçam de inteligência. Lula não estudou, não gosta de ler, mas é voz corrente que "Lula não é idiota, é muto inteligente!" Então tá.

Posto que não somos idiotas, se impõe nos vermos em outra categoria a considerar o que o grande conglomerado Oligarquia & Mídias Tradicionais nos apresentam diariamente. É aí que eu me sinto um Otário da Silva. Ou, mais apropriadamente, um Otário Von Vogel. Nunca me dizem a verdade. Tudo o que ouço é carregado de hipocrisia. É um volume incalculável de "me engana que eu gosto". Mas eu não gosto!

Vejamos esta intervenção militar na área de segurança do Estado do Rio de Janeiro. Nos poucos noticiários a que dei atenção, só ouvi de tudo sobre combater consequências. Sobre eliminar causas, nada. Todos, igualmente, ignoram o passado. Ninguém estudou história, nem ao menos consultaram as decisões de passados mais recentes como vou procurar mostrar mais à frente.

Começo pela fala do General Augusto Heleno, general da reserva, primeiro comandante da força militar da ONU no Haiti, na entrevista à Rádio BandNews (também participou do programa Painel, da GloboNews, em 17/2/18). Acredita ele que haverá uma "intensificação do trabalho de inteligência nas operações pontuais em cima de alvos compensadores (...). Eu acredito (...) que a regra de engajamento seja modificada. Nós tínhamos no Haiti regras (...) que permitiam (...) [que o sujeito] que fosse o (...) fosse o ator de um ato ou intenção hostil, (...) o Comandante (...) e até o nível de sargento, tinham poder para  (...) agir chegando inclusive à letalidade, podia matar o indivíduo"

E mais à frente.

"Estou raciocinando com (...) Ações onde haja muito pouca troca de disparos. Onde os disparos aconteçam de um lado só e a morte aconteça do outro lado. Eu vou ter mortos sim, mas vou ter morto do lado certo."

O General, respaldado por uma vivência focada na guerra, ou seja, em estratégia para que soldados "do lado certo" matem soldados "do lado errado" (e vice-versa) crê resolver a questão.

No campo de batalha, estaria certíssimo. Mas, o General, como tal, só consegue interpretar como uma guerra aquilo que é consequente de um caos social. Não é uma guerra. Se queremos usar metáforas, a que mais se presta ao Brasil é um faroeste tupiniquim de mocinhos (o lado certo) contra bandidos (o lado errado) - aí sim é possível pensar em disparos certeiros onde a morte aconteça apenas do outro lado. Sendo o mocinho ou o bandido aquele que sai morto, no dia seguinte tem um novo no seu lugar. Guerras terminam com um general, seja ele do lado certo ou do errado, levantando a bandeira branca em sinal de redenção.

O que o General, a mídia e a oligarquia dirigente corrompida, e políticos atrás de voto,  ignoram, é que dar segurança para uma cidade, estado ou país, não tem um fim com a morte dos soldados "do outro lado" seguida de um acordo celebrando o fim da guerra onde constam cláusulas de alguma compensação que será paga pelos cidadãos sobreviventes, outras que protegem o destino dos Generais derrotados e outras a glória dos vencedores. Mas o fato principal é: ao eliminar os cabeças, os soldados sobreviventes voltam em paz para suas famílias.

Como tem como objetivo apenas matar os soldados "do lado errado", é preciso que tenha um prazo para que a tarefa seja executada e possam ser extraídos índices de sucesso. Ou insucesso. Saberemos em 1 de janeiro de 2019. Neste dia seguinte, as tropas voltarão para seus quartéis de origem, deixando como resultado um número estatístico de pobres, pretos-mulatos-brancos, mortos nas vielas das "comunidades". Jovens sem pátria, sem direitos, e profundamente frustrados com a consciência de que o único futuro que lhes é permitido é o presente tomado na marra, na porrada, no arrastão, e do orgulho de por uns poucos dias ou meses foram poderosos portando uma arma de alto poder letal. Ao final da intervenção, o crime organizado mais organizado estará, com certeza. Os "generais" dos comandos das facções, estarão repondo soldados e articulando novas ações. Ao final e como sempre no passado e no futuro, sobrarão mães destroçadas com a perda de forma brutal, violenta, de seus filhos.

Esta intervenção não acabará com o fim do conflito. O General Heleno fala em usar "trabalho de inteligência" para atingir "alvos compensadores". Eu e o General devemos  ter visões diferentes sobre o que sejam tais alvos. De minha parte, penso que seriam os chefões de facções criminosas, as portas de entrada do tráfico de armas e drogas, a expulsão de agentes corrompidos no seio das instituições ligadas à segurança e a identificação de advogados e políticos que acobertam, garantem. por ação própria, ou por ação legislativa, ou por ação executiva, ou por ação judicial, a manutenção de tudo como está. Da parte do General... não tenho ideia do que ele quis dizer.

A diferença entre o ontem, sem intervenção e sem Generais, e o hoje, será só uma questão de quantidade de mortos a se acreditar na eficiência que todos na hierarquia desta "solução", esperam.

O dia seguinte será então igual ao ontem. Escalada de violência sem a presença do Exército. Marcolas e irmãos em armas e celas, comandando como sempre todo um submundo de fuzis e drogas. Políticos limitados pelos recursos orçamentários, ou reféns do medo, ou da ameaça à própria vida, ou do dinheiro das organizações criminosas, ou de um mix de tudo isto. Polícias despreparadas, desequipadas, mal-remuneradas e frustradas pelo sentimento de estarem sempre "enxugando gelo", atrás do prejuízo, revoltadas com os alvarás de soltura expedidos por juízes defensores dos direitos dos "mais humanos" que nós simples otários humanos. E vamos continuar com uma Constituição que construiu um arcabouço de proteção aos pobres cidadãos encarcerados, dando-lhes salário reclusão para a família do assassino, e uma "banana" para a família destroçada pela perda de um filho, de um irmão, de um pai. Será que o Estado arcou com as despesas do funeral?


Ora, direis, o que então estás a dizer, ô pá!

Aguardem o próximo capítulo, digo, post.

Ass: Otário Von Vogel



13/01/2018

A DISRUPTIVA DIGITRÔNICA

Deste início e até o fim, uso o termo disruptivo para sintetizar um processo novo que não resulta de um aprimoramento dos até então existentes, mas que é tão radicalmente novo que só novos e ousados agentes são capazes de implementá-los resultando em novos modelos  de processos drasticamente diversos do então em vigor.
E com digitrônico, sintetizo a união da tecnologia digital-binária que tem origem na primeira metade do século XX, somada às tecnologias de hardware de comunicação, via fibras óticas e satélites dos anos 60 e 70, que viabilizaram a comunicação mundial instantânea e, por consequência, o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e aplicativos sofisticados mas simplificados para uso do cidadão comum. Tudo isto tendo como camada invisível ao usuário, potentes linguagens de programação, até sofisticadíssimos bancos de dados distribuídos na nuvem e que detém recursos de armazenamento e recuperação de dados que nos surpreendem a cada clique.

Tenho ouvido analistas respeitados comparando a revolução tecnológica que vivemos, a digitrônica, à revolução industrial iniciada na segunda metade do século XVIII. Alegam que as principais questões são as mesmas: impacto no modo de produção, nos padrões de consumo e numa tensão sobre uma possível redução no nível de emprego que nunca ocorreu. A diferença que aponto, reside no fato de a revolução industrial ter sido consequência da evolução de escala buscada por aqueles que produziam produtos manufaturados. A energia produzida pelo vapor impulsionando o movimento, não trouxe um novo mercado destruindo um outro. Instalações produtoras não deixaram de existir. Elas adaptaram seus processos produtivos adotando a nova forma de gerar energia mecânica, isto quando muitas delas foram descobridoras de novas tecnologias. A consequência foi produzir mais no mesmo espaço de tempo e mais barato. Se alguém foi afetado, foi aquele industrial que não adotou, ou adotou tardiamente, o novo, pois o objetivo central era e ainda é "como eu produzo o mesmo mais e melhor que meu concorrente". 

A revolução digitrônica é de outra natureza. Ela é disruptiva porque rompe com o existente apresentando algo que não é fruto da evolução competitiva como na revolução industrial. É disruptiva pois ao se instalar interrompe (ou reduz) o tamanho da participação de uma solução existente, porque introduz uma solução alternativa tecnologicamente nova. Ela é disruptiva porque não nasce de dentro de quem está ganhando (vide grandes marcas mundiais que viraram lixo, ou quase, num piscar de anos). Ela é criada, alimentada, incrementada, por gente de fora, os chamados "outsiders". 

Timothy John Berners-Lee, hoje detentor do título honorífico de Sir, aos 34 anos, trabalhando no CERN (maior laboratório de pesquisas nucleares) na Suiça, propôs um projeto de hipertexto (HTML) para "facilitar a partilha e atualização de informações entre os pesquisadores", só isso. Como quase tudo na vida, um projeto egoísta para resolver problemas do próprio umbigo. Poucos anos mais tarde, aplicando princípios de sua linguagem à tecnologia de comunicação via internet, permitiu que em 25 de dezembro de 1990, Tim e seus companheiros de projeto fizessem a primeira interação entre um "cliente" HTTP e um servidor. Ele não sabia a revolução disruptiva que estava iniciando. 

Martin Cooper, um engenheiro da Motorola, soube que os policiais de Chicago reclamavam pela perda de tempo em ter que se deslocar até a viatura para poder usar o rádio e se comunicar com outros policiais ou com a central de polícia. Inspirado no seriado Jornada nas Estrelas, Martin rapidamente entregou uma solução em duas unidades: uma que ficava no veículo e outra que ficava com o policial. Mas foi só em 3 de abril de 1973 que a Motorola apresentou o primeiro celular como alternativa de comunicação interpessoal, e só em 1983 entrou em funcionamento nos Estados Unidos a primeira rede de telefonia celular. Apenas uma revolução na comunicação, mas que permitiu a disrupção que viria 30 anos mais tarde.


Nem Tim, nem Martin, podiam imaginar que no futuro existiria uma AMAZON e um GOOGLE, nem o que 5 estudantes de Harvard (um deles brasileiro) iriam criar em 2004, porque desejavam resolver um problema: algo que permitisse aos alunos (a eles principalmente) escolher entre duas garotas qual seria a que convidariam para um encontro. O resto é história, como costumamos dizer. Mark Zuckerberg assumiu o controle do FACEBOOK, despachou seus parceiros para longe, se tornou um dos caras mais ricos do mundo, e fez seu negócio egoísta gerar uma fortuna colocando pequenos anúncios ao lado de cada uma das bilhões de "curtidas" que damos todos os dias.

Até aqui só conceituei a disrupção digitrônica e apontei alguns fatos que a originaram. É óbvio que existiram outros, muitos outros, protagonizados pela determinação de Bill Gates em transformar o computador em objeto pessoal, por Steve Jobs com sua doentia mania de perfeição e design, por Marc Andreessen ao fazer o primeiro navegador, pelo mouse criado no laboratório PARC da Xerox, pelo SQL da IBM, pela estrutura de banco de dados relacional de Larry Ellison, pelos chips cada vez mais velozes da INTEL etc. Mas estes 3 que escolhi estão na base da digitrônica, pois suas ideias tornadas em produtos de massa são as que hoje fazem a disrupção.

Tim Berners-Lee rompeu com a forma de produzir e distribuir informação por texto e imagem, eliminando a necessidade de todos os processos para transportá-las de um ponto ao outro do globo terrestre. Mais que isso, tornou tal traslado, simplesmente imediato. Isto criou dois problemas: volume de informações a armazenar e necessidade de algoritmos de recuperação. Inicialmente a armazenagem era um problema do usuário, mas a pesquisa e recuperação era um problema que exigia soluções tecnológicas sofisticadas.

Então apareceu o Google com seu modelo de atrair uma montanha de capital para aplicar no desenvolvimento de um buscador "killer", matador, como dizem os americanos, que realmente primeiro matou o AltaVista (o primeiro buscador) e depois (2013), o Yahoo! Hoje, com seus algorítimos de pesquisa que eu e, tenho certeza, todo mundo pensa que só pode ser coisa do "Sobrenatural de Almeida", pois é onisciente, a tudo me respondendo em microssegundos. A disrupção do Google alcança praticamente todas as atividades humanas. Ao "saber de tudo", responder a tudo, elimina a intervenção ou participação de profissionais de várias áreas do conhecimento. Já vou ao escritório do advogado, sabendo que leis devem ser consideradas no meu litígio e quais são minhas chances, e, portanto, só quero seus serviços na montagem da estratégia. Vou ao médico levando meu diagnóstico sobre meu imaginado mal. Se leio ou ouço qualquer notícia ou simples informação sobre a qual tenho cá minhas dúvidas quanto à veracidade, apenas digito na barra de pesquisa algumas palavras e de imediato posso chegar à minha conclusão extraindo-a das tantas fontes que me são oferecidas, que aprofundam, resolvem ou certificam minhas dúvidas.

Enquanto o Google é onisciente, o FACEBOOK se tornou onipresente na humanidade, mesmo que ainda nem todos os humanos tenham sua página no aplicativo. Há muitos que crêem que não há mais vida sem FB. Exageros fora, as redes sociais são a nova ágora, a praça de Atenas onde os gregos debatiam seus assuntos mais relevantes, especialmente política. Publicar é preciso, diria Fernando Pessoa se vivo fosse. Insultar deixou de ser um comportamento grosseiro para se transformar apenas em... uma manifestação xenófoba, racista, homofóbica e além. Opinamos sobre tudo o que não temos a menor competência para opinar. Nossa credulidade nunca esteve tão à flor da pele.Pelo Whatsapp ou FB, redistribuímos prováveis mentiras como certeiras verdades. Protegidos pelo anonimato ou por perfis falsos, ofendemos uns aos outros e nos tornamos militantes radicais de causas patrocinadas por interesses escusos que não somos capazes de perceber a tempo. 

E o smartphone, o celular-computador, ou computador-celular, completa a trilogia de qualidades do ser supremo de nele tudo poder ser feito, o seu caráter onipotente. Com um celular podemos tudo.  A possibilidade de ser usado como telefone, é um detalhe menor. Com milhares de aplicativos que posso baixar gratuitamente ou por 1,99 (não importa a moeda), posso ter e ler um livro da biblioteca mundial; posso saber a que altitude estou; a previsão do tempo; cronometrar meu trajeto; aprender sobre as estrelas, planetas e constelações; chego aos lugares que nunca fui guiado pelo Waze; me oriento pela bússola; passo meu tempo com meus jogos preferidos; gravo minhas conversas, fotografo e filmo tudo o que me interessa; compro pelas "stores" disponíveis; reservo meu "ticket" para o teatro e minha hospedagem em meu próximo destino (claro, compro a passagem); revejo programas da TV; voto nas pesquisas mais estapafúrdias; "me sinto" o repórter enviando um vídeo para a rádio ou estação de TV denunciando um assalto ou simplesmente informando sobre o trânsito. Ah! Faço, ou tento, restabelecer minha conexão de banda larga clicando no aplicativo da operadora!!! Não posso nem mais "pular a cerca", minha mulher sabe sempre as coordenadas de onde estou!!!

Digitrônica: onipresença, onipotência e onisciência. Está feita a disrupção. Agora precisamos estimar, imaginar, como a sociedade, como o mundo, como a vida, irão funcionar. Que novas regras, padrões, normas, passam a vigorar. Que implicações existirão sobre a ética, sobre a moralidade, sobre a importância da virtude nas ações do homem como desejava Aristóteles, sobre o papel da vontade de potência como agente de mudanças na proposta de Nietzsche, e como se conduzirá o debate das ideias contrárias? Como desejada por Platão em sua dialética (um debate comprometido com a busca da verdade) ou um embate sangrento entre verdades opostas até que uma subjugue e escravize a outra?

Por hoje, é só. Quando voltar, vou me arriscar a explorar o que a disrupção digitrônica já mudou ou pode vir a mudar no cotidiano da vida, nas interrelações, na política, no país e no mundo.