13/01/2018

A DISRUPTIVA DIGITRÔNICA

Deste início e até o fim, uso o termo disruptivo para sintetizar um processo novo que não resulta de um aprimoramento dos até então existentes, mas que é tão radicalmente novo que só novos e ousados agentes são capazes de implementá-los resultando em novos modelos  de processos drasticamente diversos do então em vigor.
E com digitrônico, sintetizo a união da tecnologia digital-binária que tem origem na primeira metade do século XX, somada às tecnologias de hardware de comunicação, via fibras óticas e satélites dos anos 60 e 70, que viabilizaram a comunicação mundial instantânea e, por consequência, o desenvolvimento de equipamentos eletrônicos e aplicativos sofisticados mas simplificados para uso do cidadão comum. Tudo isto tendo como camada invisível ao usuário, potentes linguagens de programação, até sofisticadíssimos bancos de dados distribuídos na nuvem e que detém recursos de armazenamento e recuperação de dados que nos surpreendem a cada clique.

Tenho ouvido analistas respeitados comparando a revolução tecnológica que vivemos, a digitrônica, à revolução industrial iniciada na segunda metade do século XVIII. Alegam que as principais questões são as mesmas: impacto no modo de produção, nos padrões de consumo e numa tensão sobre uma possível redução no nível de emprego que nunca ocorreu. A diferença que aponto, reside no fato de a revolução industrial ter sido consequência da evolução de escala buscada por aqueles que produziam produtos manufaturados. A energia produzida pelo vapor impulsionando o movimento, não trouxe um novo mercado destruindo um outro. Instalações produtoras não deixaram de existir. Elas adaptaram seus processos produtivos adotando a nova forma de gerar energia mecânica, isto quando muitas delas foram descobridoras de novas tecnologias. A consequência foi produzir mais no mesmo espaço de tempo e mais barato. Se alguém foi afetado, foi aquele industrial que não adotou, ou adotou tardiamente, o novo, pois o objetivo central era e ainda é "como eu produzo o mesmo mais e melhor que meu concorrente". 

A revolução digitrônica é de outra natureza. Ela é disruptiva porque rompe com o existente apresentando algo que não é fruto da evolução competitiva como na revolução industrial. É disruptiva pois ao se instalar interrompe (ou reduz) o tamanho da participação de uma solução existente, porque introduz uma solução alternativa tecnologicamente nova. Ela é disruptiva porque não nasce de dentro de quem está ganhando (vide grandes marcas mundiais que viraram lixo, ou quase, num piscar de anos). Ela é criada, alimentada, incrementada, por gente de fora, os chamados "outsiders". 

Timothy John Berners-Lee, hoje detentor do título honorífico de Sir, aos 34 anos, trabalhando no CERN (maior laboratório de pesquisas nucleares) na Suiça, propôs um projeto de hipertexto (HTML) para "facilitar a partilha e atualização de informações entre os pesquisadores", só isso. Como quase tudo na vida, um projeto egoísta para resolver problemas do próprio umbigo. Poucos anos mais tarde, aplicando princípios de sua linguagem à tecnologia de comunicação via internet, permitiu que em 25 de dezembro de 1990, Tim e seus companheiros de projeto fizessem a primeira interação entre um "cliente" HTTP e um servidor. Ele não sabia a revolução disruptiva que estava iniciando. 

Martin Cooper, um engenheiro da Motorola, soube que os policiais de Chicago reclamavam pela perda de tempo em ter que se deslocar até a viatura para poder usar o rádio e se comunicar com outros policiais ou com a central de polícia. Inspirado no seriado Jornada nas Estrelas, Martin rapidamente entregou uma solução em duas unidades: uma que ficava no veículo e outra que ficava com o policial. Mas foi só em 3 de abril de 1973 que a Motorola apresentou o primeiro celular como alternativa de comunicação interpessoal, e só em 1983 entrou em funcionamento nos Estados Unidos a primeira rede de telefonia celular. Apenas uma revolução na comunicação, mas que permitiu a disrupção que viria 30 anos mais tarde.


Nem Tim, nem Martin, podiam imaginar que no futuro existiria uma AMAZON e um GOOGLE, nem o que 5 estudantes de Harvard (um deles brasileiro) iriam criar em 2004, porque desejavam resolver um problema: algo que permitisse aos alunos (a eles principalmente) escolher entre duas garotas qual seria a que convidariam para um encontro. O resto é história, como costumamos dizer. Mark Zuckerberg assumiu o controle do FACEBOOK, despachou seus parceiros para longe, se tornou um dos caras mais ricos do mundo, e fez seu negócio egoísta gerar uma fortuna colocando pequenos anúncios ao lado de cada uma das bilhões de "curtidas" que damos todos os dias.

Até aqui só conceituei a disrupção digitrônica e apontei alguns fatos que a originaram. É óbvio que existiram outros, muitos outros, protagonizados pela determinação de Bill Gates em transformar o computador em objeto pessoal, por Steve Jobs com sua doentia mania de perfeição e design, por Marc Andreessen ao fazer o primeiro navegador, pelo mouse criado no laboratório PARC da Xerox, pelo SQL da IBM, pela estrutura de banco de dados relacional de Larry Ellison, pelos chips cada vez mais velozes da INTEL etc. Mas estes 3 que escolhi estão na base da digitrônica, pois suas ideias tornadas em produtos de massa são as que hoje fazem a disrupção.

Tim Berners-Lee rompeu com a forma de produzir e distribuir informação por texto e imagem, eliminando a necessidade de todos os processos para transportá-las de um ponto ao outro do globo terrestre. Mais que isso, tornou tal traslado, simplesmente imediato. Isto criou dois problemas: volume de informações a armazenar e necessidade de algoritmos de recuperação. Inicialmente a armazenagem era um problema do usuário, mas a pesquisa e recuperação era um problema que exigia soluções tecnológicas sofisticadas.

Então apareceu o Google com seu modelo de atrair uma montanha de capital para aplicar no desenvolvimento de um buscador "killer", matador, como dizem os americanos, que realmente primeiro matou o AltaVista (o primeiro buscador) e depois (2013), o Yahoo! Hoje, com seus algorítimos de pesquisa que eu e, tenho certeza, todo mundo pensa que só pode ser coisa do "Sobrenatural de Almeida", pois é onisciente, a tudo me respondendo em microssegundos. A disrupção do Google alcança praticamente todas as atividades humanas. Ao "saber de tudo", responder a tudo, elimina a intervenção ou participação de profissionais de várias áreas do conhecimento. Já vou ao escritório do advogado, sabendo que leis devem ser consideradas no meu litígio e quais são minhas chances, e, portanto, só quero seus serviços na montagem da estratégia. Vou ao médico levando meu diagnóstico sobre meu imaginado mal. Se leio ou ouço qualquer notícia ou simples informação sobre a qual tenho cá minhas dúvidas quanto à veracidade, apenas digito na barra de pesquisa algumas palavras e de imediato posso chegar à minha conclusão extraindo-a das tantas fontes que me são oferecidas, que aprofundam, resolvem ou certificam minhas dúvidas.

Enquanto o Google é onisciente, o FACEBOOK se tornou onipresente na humanidade, mesmo que ainda nem todos os humanos tenham sua página no aplicativo. Há muitos que crêem que não há mais vida sem FB. Exageros fora, as redes sociais são a nova ágora, a praça de Atenas onde os gregos debatiam seus assuntos mais relevantes, especialmente política. Publicar é preciso, diria Fernando Pessoa se vivo fosse. Insultar deixou de ser um comportamento grosseiro para se transformar apenas em... uma manifestação xenófoba, racista, homofóbica e além. Opinamos sobre tudo o que não temos a menor competência para opinar. Nossa credulidade nunca esteve tão à flor da pele.Pelo Whatsapp ou FB, redistribuímos prováveis mentiras como certeiras verdades. Protegidos pelo anonimato ou por perfis falsos, ofendemos uns aos outros e nos tornamos militantes radicais de causas patrocinadas por interesses escusos que não somos capazes de perceber a tempo. 

E o smartphone, o celular-computador, ou computador-celular, completa a trilogia de qualidades do ser supremo de nele tudo poder ser feito, o seu caráter onipotente. Com um celular podemos tudo.  A possibilidade de ser usado como telefone, é um detalhe menor. Com milhares de aplicativos que posso baixar gratuitamente ou por 1,99 (não importa a moeda), posso ter e ler um livro da biblioteca mundial; posso saber a que altitude estou; a previsão do tempo; cronometrar meu trajeto; aprender sobre as estrelas, planetas e constelações; chego aos lugares que nunca fui guiado pelo Waze; me oriento pela bússola; passo meu tempo com meus jogos preferidos; gravo minhas conversas, fotografo e filmo tudo o que me interessa; compro pelas "stores" disponíveis; reservo meu "ticket" para o teatro e minha hospedagem em meu próximo destino (claro, compro a passagem); revejo programas da TV; voto nas pesquisas mais estapafúrdias; "me sinto" o repórter enviando um vídeo para a rádio ou estação de TV denunciando um assalto ou simplesmente informando sobre o trânsito. Ah! Faço, ou tento, restabelecer minha conexão de banda larga clicando no aplicativo da operadora!!! Não posso nem mais "pular a cerca", minha mulher sabe sempre as coordenadas de onde estou!!!

Digitrônica: onipresença, onipotência e onisciência. Está feita a disrupção. Agora precisamos estimar, imaginar, como a sociedade, como o mundo, como a vida, irão funcionar. Que novas regras, padrões, normas, passam a vigorar. Que implicações existirão sobre a ética, sobre a moralidade, sobre a importância da virtude nas ações do homem como desejava Aristóteles, sobre o papel da vontade de potência como agente de mudanças na proposta de Nietzsche, e como se conduzirá o debate das ideias contrárias? Como desejada por Platão em sua dialética (um debate comprometido com a busca da verdade) ou um embate sangrento entre verdades opostas até que uma subjugue e escravize a outra?

Por hoje, é só. Quando voltar, vou me arriscar a explorar o que a disrupção digitrônica já mudou ou pode vir a mudar no cotidiano da vida, nas interrelações, na política, no país e no mundo.